terça-feira, 30 de junho de 2009

O DEPOIS...

_E depois?
_ O depois não sabemos se existe. E, se existe, ignoramos como seja. É desconhecido, não nos interessa.
_ Eu também era desconhecida, como tu o eras também, no entanto...
_No entanto...
_Amei-te sem querer...
_E sem querer amei-te. Mas, nós tínhamos o nosso encontro marcado naquela encruzilhada da vida. Tu não poderias faltar, porque o tempo te conduziria, com sua marcha infalível, certa. E o destino ia à tua frente, para que não errasses o caminho...
_Eu sei. E tu, também, com certeza, não poderias deixar de estar ali, à minha espera...
_Sim, para que não passasses além. Se eu não chegasse a tempo, depois... Quem sabe?... Talvez não te alcançasse mais...
_Viria outra, pelo mesmo caminho em que vim, e a chegada dela coincidiria com a tua. E havias de pensar que a outra fosse eu, enquanto, alem, já bem distante, eu seguiria pensando que o outro fosse tu...
_Impossível...
_Não. Muito lógico. O destino não existe. O nosso encontro foi um acidente sem motivo e sem importância...
_Querida...
_Deixemos de sentimentalismos... Não sejamos românticos... Fantasistas...
_Mas tu choras...
_Não... é a luz do sol... nos meus olhos...
_Do sol? O sol está morrendo, lá longe... É quase noite, querida!
_E por que não partes? Por que não segues o teu caminho? É preciso que vás... é quase noite...
_Sim, mas tu vais comigo. Agora, eu já não posso continuar sem ti...
_Eu preciso ficar. Eu sei que, além, na outra encruzilhada, o ‘depois’ te aguarda uma surpresa... Eu ‘a’ vi passar... Ia depressa, risonha, feliz, pensando que já estavas impaciente, à espera ‘dela’... Vai. Não te demores.

Ele ficou inquieto, aflito, olhou o caminho que seguia direito como o próprio destino. Lá longe, pareceu-lhe distinguir uma figura... Quase uma ilusão. Depois, beijou as mãos frias que estavam presas às suas, e perguntou, sem olhar os olhas dela:

_Tu mandas... Eu vou. Mas... E depois?

Ela quis sorrir e lhe dizer, sorrindo que o depois não existe; mas preferia que ele partisse alegre, e lhe deixasse na lembrança, um pouco da alegria que ele não sabia disfarçar...
E falou:

_Depois... Eu ficarei com a tua lembrança, querido; e a presença ‘dela’ te ajudará a esquecer a minha... Olha o céu!
_Está escuro... E as estrelas... São estrelas ou são lágrimas. Brilhando lá no alto?

Mas ela num último esforço:

_São as luzes da tua festa. Vai!

Ele partiu...
E a sombra caridosa da noite, cobriu, com o mesmo manto enfeitado de estrelas, a vitória e a derrota, a tristeza e a alegria.
Do silêncio solene que reinava, saíram, de vez em quando, risos de felicidade e soluços de... Felicidade também. Porque a abnegação é um dos retratos da felicidade.



Texto que ilustra o amor na sua forma mais pura. O amor que é tão vivo, tão forte, tão real e verdadeiro que faz com que abra mão do seu amado, deixando que outra o ame e seja amada por ele. E sofre calada, chora sorrindo e sorri de tanta dor, sabendo que mesmo amando o outro como ou mais que a si própria, ele só pode ser plenamente feliz, nos braços de outrem.
Pela felicidade da pessoa amada, abro mão do meu amor, permitindo que ela seja amada, desejada e acariciada por outras mãos, corpo e mente. Optei pelo peso da solidão sabendo que minha amada não está caminhando sozinha. Recolho-me e finjo nada sentir para que diante dela meu verdadeiro ‘eu’ não a faça me abandonar mais uma vez.