Lendo versos antigos, prosas passadas e diálogos inventados por mim, por não ter coragem de iniciá-los verdadeiramente, e esse clima de fim de ano, novas resoluções, novos planos, novos compromissos...
Mas meu fim de ano não tem cara de novidade, não tem novas resoluções, nem novos planos, muito menos novos compromissos. Mas também prefiro não faze-los.
Assumir um compromisso é confiar em alguém ou em alguma coisa, mesmo que esse alguém seja você e alguma coisa seja seu diário. E confiar é uma coisa que cansei de fazer. Cedo ou tarde, eu perdi a confiança em tudo que passou pela minha vida. Às vezes essa foi restaurada, mas ainda mantém suas cicatrizes dolorosas, latejantes, pungentes.
Quando não restaurada, eu simplesmente podava minha vida, meus amigos, meus conhecidos. Tirava da minha vida alguém que me magoou pelo simples fato de não precisar dela mais do que eu precisava de mim. Eu era auto-suficiente. E como tudo na vida, minha independência de qualquer laço afetivo não-familiar, acabou.
Mas eu não conquistei nada, nem ninguém, não cativei alguém que me segurasse quando eu não mais me suportasse, não fiz nenhum laço forte o bastante pra entender que não é egoísmo, é fraqueza, é necessidade, carência. Não tenho nada que posso chamar de meu, nada que esteja protegido contra roubos irreversíveis.
Hoje eu sinto um peso nas costas, parece que estou carregando o mundo. E sinto que não existe quem possa carregá-lo comigo, quem QUEIRA carregá-lo comigo.
Hoje, eu me sinto vazia, como um balão que veio furado, em meio a tantos outros que flutuam pelos céus.
Hoje, minha auto-confiança se extinguiu. Minha força se esvai pelas pontas dos dedos, sem rumo, como um riacho que faz seu caminho por entre as rochas. Minha força se desprende de mim, sua cor é de sangue e seu cheiro é doce. Sinto meu corpo desfalecer com meu consentimento, e aos poucos se tornando uma massa inerte, gélida, putrefata.
Hoje, me junto à escória da sociedade, por livre e espontânea vontade.
Hoje, eu me esqueço de você, e também dos outros, afinal uma vez instaurada, a erva-daninha toma conta de todo o jardim, transformando as lindas flores em ervas-daninhas também. Hoje eu esqueço de mim. Porque você esteve em mim, porque eu quis estar em você, com você pra você e por você.
Hoje eu deixo pra trás meus sonhos de felicidade, com você.
Hoje eu deixo pra trás minha vontade de retornar àquele lugar onde eu sei que você estará.
Hoje eu abandono o abandono. Hoje eu desacredito na fé. Hoje eu descreio no conforto.
Hoje eu ando descalço, sem unhas sobre os dedos pálidos, sem brilho no olhar, sem voz, sem... Mim.
E o amanhã não existirá para me ver sorrir, o amanhã não surgirá no meu horizonte cansado de te aguardar. A estrada por onde você se foi, existe sem existir, porque ela não tem começo, nem fim, ela só existe onde você pisa, sem deixar vestígios por onde eu possa me guiar e te seguir. Fiquei assim então, perdida na noite escura, sem visão, sem proteção.
E assim permaneço. Uma casca sem vida, porém errante!

