As duas ficaram durante alguns segundos se olhando. Olhar de ternura. Suas mãos esquentavam as da outra. Fazia frio. Levemente veio o abraço, carinhoso, sutil, os corações acelerados e não mais sentiam necessidade dos casacos. Seus corpos estavam quentes e ansiavam por um brisa, o calor tomava conta do ambiente, ao redor de seus corpos unidos, uma aura exalava uma energia intensamente sexual.
As mãos percorriam as paredes procurando orientação, portas, maçanetas, obstáculos. Despiam-se pelo caminho, acariciavam uma a pele da outra, nuas, se tocavam como se viver dependesse daquele momento e apenas. Beijavam-se loucamente, apaixonadamente, murmuravam delírios de prazer. Cada célula de seus corpos estavam unidas, o sexo era íntimo, forte, verdadeiro.
Sorriram de satisfação ao gozo. Descobriam uma nova forma de respirar e sentiram vivas. Todos os sentidos estavam confusos e ao mesmo tempo aguçados.
O abraço daquela mulher era agora um ninho aconchegante onde podia descansar despreocupada. Seu sono seria velado por quem o apreciava, e assim sentindo os dedos dela em seus cabelos, adormeceria. Um sono leve, tranquilo, durou exatamente o tempo que seu corpo precisava para se recuperar.
Quando acordou a cama estava vazia mas no travesseiro pousava um bilhete: "Gostei". Logo entendeu que não passara de mais uma qualquer nas mãos de uma conquistadora. Sentiu-se usada, enganada e decepcionada consigo, por ter permitido que lhe invadissem a intimidade tão brutalmente e lhe abandonassem tão insensivelmente, friamente. Sentiu-se traída por seus desejos e iludida por seu coração. Abandonada pela razão. Enciumada pela felicidade alheia.
Olhou-se no espelho e chorou, de desgosto à sua imagem refletida.
Acendeu um cigarro. Seus lábios tremiam. No filtro um borrão vermelho marcava o contato com os lábios. Os olhos fechados permitiam que o corpo vibrasse acompanhando o efeito da droga no organismo. O restante era eliminado por um suspiro, formando uma nuvem opaca de fumaça que se espelhava tomando novas formas a cada segundo. Uma última visão de sua volta, uma vela na mesinha ao lado do isqueiro e do maço já vazio, um quadro de um pôr-do-sol que por vezes foi seu único companheiro, a janela aberta, as cortinas dançavam ao vento, e o espelho maldito, vigarista. Ele sorri e zomba dela, o desespero é agora seu único mentor, com uma caneta ela rasbica alguma coisa e com as mãos firmes, puxa o gatilho.
O tiro é certo, curto, fatal. O cadáver sorri. Um sorriso sincero como nunca tinha sido visto em vida, e no chão ao meu lado, levemente tingido de sangue, um bilhete: "Gostei"


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