" Às dez e meia o sino tornou a badalar. Alonzo recolheu-se à cela para seus quinze minutos de meditação. Tirou do armário um estojo de couro negro e abriu-o. Lá estava o punhal, que ele não via nem tocava havia tantos anos. Era uma bela arma de cabo e bainha de prata lavrada. Alonzo desembainhou-a: a lâmina triangular de aço, que ele apertou na mão, era fria. Fria e má - concluiu. Fechou os olhos e imaginou o que teria sido sua vida - ou antes, sua morte - se ele houvesse matado aquele homem. (Como se chama ele? Com quem se parecia? Não se lembrava de nada...) Imaginou o horror de sentir nas mãos o sangue do outro, quente como uma coisa viva. Pensou na agonia das horas que se seguiriam ao crime, nas noites de insônia, no remorso a espicaçar-lhe a consiência, no horror e na vergonha da família e finalmente nas torturas do inferno, onde sua alma iria expiar pelos séculos dos séculos, não só o crime de homicídio como também o pecado da luxúria. Alonzo então usoiu os cinco sentidos para criar um inferno e se imaginar dentro dele. Ouviu seus próprios gritos de dor, os berros e as blafêmias dos outros condenados que vociferavam coisas obsenas, vituperando Cristo e a Virgem... Sentiu o cheiro de carne queimada, o fedor pútrito de corpos em decomposição. Viu os pecadores a se estorcerem, esfolados, purulentos, chamuscados, dilacerados, carbonizados - mas vivos, vivos sempre, sofrendo sempre. Sentiu na própria carne a dor que as queimaduras produziam. Tinha pecado: estava perdido pra toda eternidade. O suor escorria-lhe pelo rosto, pelo torso e de olhos cerrados Alonzo debatia-se sempre no inferno. Não havia mais salvação. Todos os segundos, todos os minutos, todas as horas, todos os dias, todos os anos, todos os séculos dos séculos - sem um único momento de alívio, sem um único instante de descanço - significavam dor, dor aguda, dilacerante. Dor.. doía-lhe a palma da mão de onde o sangue pingava lentamente nas lajes do chão. Alonzo abriu os olhos. A ponta do punhal penetrara-lhe na carne. Mas agora, suado e ofegante, ele entrevia o Céu. No ato de Deus que fulminara aquele homem, ele vislumbrara o desejo do Altíssimo não só de salvar-lhe a alma como também de chamá-lo para Seu serviço. Ele estava salvo!"
VERÍSSIMO, Érico. O continente - O tempo e o vento 1. A fonte / 3 página 37 - edição integral editora círculo do livro.
é bom e ruim quando a gente já encontra pronto um texto que teríamos gosto em escrever. Bom porque poupa-nos o trabalho, ruim porque sempre fica aquela curiosidade de como teríamos escrito e se teriamos tido tanta maestria.
Eu queria um texto que mostrasse justiça para os justos, e punição para os malfeitores. No fundo é isso que desejamos.
Ansiamos que nossos carrascos caiam em seus próprios traseiros, e sintam em suas carnes por toda a eternidade a dor e a podridão do inferno - seja ele real ou não - enquanto no Céu, pousam tranquilos aqueles que sempre foram fiéis aos seus princípios, convicções, amigos e familiares.
Bons sonhos!
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Eu acredito no AMOR

Já faz tempo né? É. Bastante. Tem problema? Não. Nenhum.
Estou escrevendo um novo conto. Aliás três novos contos. As influências são muitas. A vontade de criar um novo mundo e mergulhar nele até me sufocar e nada mais restar de mim além das minhas criações. Mas não tenho conseguido dar continuidade a nenhum deles. Por mais infantis ou maduras, inocentes ou macabras que sejam. Meus textos são o que ficarão de mim. Marcarão minha existência, meus dias, meus sonhos e anseios.
Escrever é minha válvula de escape. OU eu escrevo ou eu morro. Mas eu não quero morrer. OU quero?
E quando eu não mais tiver inspiração pra escrever? E quando meus dedos não tiverem força pra segurar um lápis? E se por acaso um dia minha fonte de ideias secar?
Sem amor, sem carinho, sem sonhos, sem criatividade também? Me sinto em um labirinto que muda constantemente e me dá a impressão de que vou ficar presa na minha própria cabeça pra sempre. Um labirinto de palavras mutantes. Pensamentos diversos. Pontos de vista divergentes sobre um mesmo assunto, uma mesma pessoa. Assisti um seriado ou filme ou qualquer coisa que seja que dizia "Pessoas, são melhores do que ninguém" mas a vida tem me mostrado o contrário. As pessoas são frias, cruéis e calculistas. As pessoas têm o poder de magoar quem mais quer bem a elas. As pessoas são incapazes de um ato de carinho ou compreensão quando o problema não está ligado a seus próprios interesses. As pessoas se aproximam uma das outras por querer alguma coisa delas.
MENTIRA!
Existem as que se importam de fato com os outros. Existem aquelas pra quem amizade é uma palavra forte, com sentido, significado e responsabilidades. Existem aquelas que participam de sua vida porque querem estar presente. Aquelas que nos amam gratuitamente e que querem a cada novo dia ver brotar em nossos lábios um sorriso sincero.
É sobre isso que desejo escrever. Sobre amizades como a @carolduca, @bexbuarque, @giulyfernandes, @andrelasmar, @nadia_chaves, @erikaribeiro.
Mas quando contemplo a folha em branco são as @caroltalks, @_marinagomes, @marinadalia, @tatiols, @raissaarocha, etc... que invadem meus pensamentos.
POR QUE?
Porque um dia, em algum momento essas pessoas me fizeram mal, ou ainda fazem. E escrever pensando nelas é a maneira mais prática de expurgar de mim os sentimentos de dor e solidão que elas me causaram. Porque me matar em textos é a maneira mais rápida de me mostrar que eu estou viva, respirante. Porque expor meu lado fraco é a melhor maneira de me fazer forte.
O bem e o mal têm que existir juntos, cabe ao ser escolher qual caminho trilhar. E ainda bem que existem aqueles que andam nas sombras, que causam dor e assolam sonhos de felicidade. Ainda bem que existe quem me faça chorar, meus sorrisos são pra quem os merece. Ainda bem que existe quem me magoe, meu consolo está nos ombros de quem oferece-os a mim. Ainda bem que existe o amor não-correspondido, minha testemunha está aguardando por mim junto da minha felicidade plena.
Meu coração hoje está em paz.
Minha consciência está tranquila.
E meu travesseiro não tem mais que secar minhas lágrimas.
e a vocês eu desejo bons sonhos se a cabeça de vocês permitir.
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